em especial aos amigos queridos que se preocuparam comigo neste dia e que conseguiram me fazer sentir uma pessoa especial em meio a multidão de desesperados em Londres. amo vocs. obrigada por tudo, pelos recados no orkut, pelos e-mails e pelo bate-papo mesmo que rápido pelo mns.
Os 21 dias que já passei aqui em Londres seguiram uma rotina quase que rigorosa. Até hoje (ontem). Todos os dias eram praticamente a mesma coisa. Acordava, me arrumava e saía pelas ruas, metrôs e ônibus, de bairro, em bairro a procura de um emprego para que eu possa me manter na cidade enquanto estudo inglês. Mas hoje, por sorte ou por outro motivo qualquer, talvez uma inspiração divina, não importa, fiz diferente. Acordei mais tarde do que o normal, eram 9 horas, e decidi ficar em casa para arrumar minhas malas, já que me mudaria de casa amanhã pela manhã.
A minha prima, com quem estou dividindo apartamento no momento, saiu de casa enquanto eu fiquei respondendo a e-mails de amigas de Vitória. O telefone então começou a tocar muito para minha prima, mas em um desses toques, era exatamente ela me pedindo com uma voz trêmula, para eu não sair de casa até que ela voltasse, pois ela tinha tido notícias de que um ônibus tinha explodido no Centro de Londres.
Eu imediatamente liguei a televisão e fiquei tentando entender o que estava acontecendo, já com muito medo e preocupada com ela que estava na rua. Mas como estou há pouco tempo aqui e meu inglês não é fluente, e isso somado ao nervosismo que sentia na hora, preferi ficar esperando pelas noticias que minha prima poderia trazer da rua. Mas uma coisa eu sabia, estava acontecendo alguma coisa muito grave, porque sei que a possibilidade de um ataque terrorista em Londres era iminente, aliás assunto de uma conversa recente que tive com uma amiga aquin há alguns dias.
Assim que minha prima chegou em casa, muito apavorada, ficamos assistindo aos noticiários que anunciaram as explosões nas estações de metrô e nos ônibus. Aterrorizadas com os acontecimentos, e ainda sem acreditar muito que aquilo tudo realmente estava acontecendo, só pensávamos em ligar para nossas famílias no Brasil para acalmá-los e dizer que estávamos bem.
Mesmo com os telefones e celulares não funcionando direito, conseguimos localizá-los. Começamos então a receber ligações e e-mails – que eram checados de 10 em 10 segundos – de amigos e parentes querendo saber se estávamos bem. Isso tudo estava acontecendo em meio a mais notícias pela televisão e sendo cada vez maior o número de mortos, e ainda enquanto ficávamos olhando a movimentação das ruas pela janela do apartamento em que estávamos, que fica em uma movimentada rua de Notting Hiil, bairro central de Londres.
Pela televisão, estamos tendo a cada instante imagens do terror, pessoas feridas, machucadas e ainda sujas com toda a fumaça produzida pelas bombas, imagens do ônibus explodido, das estações interditadas, das ruas desertas, das pessoas voltando a pé para suas casas e depoimentos emocionados de pessoas que estavam próximas aos atentados. Hoje (ontem) a maior parte do tempo eu fiquei triste com o que estava acontecendo, mas ao mesmo tempo fascinada por estar no meio de tudo isso e agradecida por eu não ter saído de casa hoje (ontem) e por estar tudo bem comigo e com meus amigos.
Já sabemos que foram 3 bombas no metrô - atingindo 6 estações e vários trens - e uma em um ônibus. Até agora (19 horas de Londres) há 37 mortes confirmadas e inúmeros feridos (amputações, fraturas, pessoas em choque). O Terminal 3 de Heathrow – o principal aeroporto de Londres e da Europa - está evacuado e Victoria Train Station, uma das várias estações de metrô, também, além de inúmeros "pacotes suspeitos" em vários lugares. Ainda estamos sem metrô e ônibus, mas alguns trens (para cidades e vilas próximas) já voltam à atividade, num esforço de levar as pessoas de volta às suas casas. Nenhum grupo terrorista se manifestou ainda. A vida na cidade continua. Ainda não sabemos quais serão as medidas e como isto afetará a cidade e nossa rotina. Os ingleses têm um jeito peculiar de reagir às coisas, vão defender seu modo de vida e seus valores. Não acredito que sejam contaminados por uma paranóia histérica
(depoimento que mandei para A Gazeta)